Para um neurótico obsessivo que também lida com o TDAH e o TAB 2, a fé é um desafio diário. Como exemplo, cito o texto de Tiago 1:5-8 como a descrição técnica de um inferno particular.
A "alma/mente dividida", o "Ânimo Dobre" (dipsycho - di=dois; psyche = alma/mente) deixa de ser uma metáfora e passa a ser a experiência física e psíquica cotidiana.
"Se, porém, algum de vós necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente e nada lhes impropera; e ser-lhe-á concedida.
Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando; pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento.
Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma coisa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos." (Tiago 1:5 - 8)
Entendo que Tiago não fala de uma "proibição" da DÚVIDA INTELECTUAL, mas de um "alerta" sobre a FRAGMENTAÇÃO DA VONTADE.
A combinação entre "fé sem dúvidar" e constancia é um desafio esgotante para o corpo e para a alma de qualquer ser humano, mas potencializada nos casos como o meu.
Quando falo de DÚVIDA INTELECTUAL, falo de um processo cognitivo com reflexos motores.
Por que não entendo como proibição? Se a dúvida intelectual fosse pecado, o livro de Jó e metade dos Salmos (que questionam a Deus abertamente) teriam sido excluídos.
Na Neurose e no TDAH, o cérebro produz dúvidas por padrão. O TDAH traz mil associações por segundo e a Obsessão as analisa à exaustão. Tentar proibir isso é como tentar proibir o coração de bater, como exigir que o humano deixe de ser humano, uma contradição criacional.
Um exemplo de oração: "Deus, eu não sinto sempre Sua presença e isso é angustiante, mas eu decido agir conforme Seus princípios." Aqui a vontade está unificada, apesar da dúvida.
Já na FRAGMENTAÇÃO DA VONTADE eu peço ajuda a Deus, mas no fundo não quero abrir mão do controle, e se não der certo eu já tenho um plano B antiético, e na verdade nem sei se quero essa ajuda. Aqui a vontade está estilhaçada; não há um/unidade presente para receber a resposta.
Minha vivência é o que chamo de "UFC: Hiperfluxo vs. Paralisia". O encontro dessas condições diante de qualquer desafio resulta em uma exaustão profunda:
- TDAH e a "Onda do Mar" (Instabilidade Biológica): impõe uma dificuldade neurobiológica na sustentação da atenção e na regulação emocional.
Para quem tem TDAH, o "vento" que agita a onda são os estímulos externos e internos. A pessoa decide ter fé ou foco em algo, mas o cérebro busca a próxima novidade dopaminérgica.
A dificuldade em manter rotinas e a impulsividade fazem com que a pessoa se sinta "inconstante em todos os seus caminhos" (é uma tortura pessoal), não por falta de caráter, mas por uma falha na função executiva.
- TAB 2 é o "vácuo" da onda. Onde Tiago diz para "pedir com fé", a depressão responde com "para quê?" "Qual o sentido?". O indivíduo perde o acesso afetivo às suas próprias motivações e convicções. Ele se vê e se sente como a própria "onda do mar". A culpa obsessiva se aproveita e se funde com a dor existencial.
- NEUROSE OBSESSIVA e o "Ânimo Dobre" (Conflito Psíquico)
Para a psicanálise, o obsessivo é o mestre dos pensamentos, da ambivalência, da dívida e da dúvida.
A dúvida como defesa para adiar a ação. Se ele não se decide, ele não "perde" as outras opções e não assume o risco do erro. O "duvidar" de Tiago 1:6 é o habitat natural do obsessivo (Gozo).
Enquanto o texto pede "peça com fé", o obsessivo está pensando: "Será que pedi do jeito certo? Será que minha intenção era pura? E se eu estiver me enganando?" "Será que tenho fé suficiente?". Ele tenta cercar o desejo com garantias que nunca chegam.
É um dia a dia de:
- Dúvida;
- Esquecimento ou distração do propósito;
- Insegurança e medo de errar/perder o controle;
- Paralisia Decisória. A pessoa "sabe" o que quer, mas se perde no processo;
- Ação comprometida, gerando: Impulsividade (precipitação). Procrastinação (pensa sem agir).
- Ciclos de Caos. Ações impensadas seguidas de culpas intermináveis.
- Mudança rápida de interesse.
- Conflito entre o "eu" e o "super-eu".
- Fragmentação Identitária. Sensação de que "não sou um só".
- Dissonância Cognitiva: Você acredita intelectualmente, mas seu corpo e seu cérebro não entregam a estabilidade necessária para viver essa crença.
É angustiante porque Tiago descreve o homem de ânimo dobre como alguém que "não alcançará coisa alguma". Para o obsessivo que sou, isso soa como uma sentença de condenação à mediocridade ou ao abandono divino (Pai).
O obsessivo tende a ler Tiago 1:5-8 de forma punitiva. Ele interpreta sua dificuldade de concentração (TDAH), sua instabilidade (TAB 2) e sua dúvida estrutural (Obsessão) como "falta de fé", o que gera mais ansiedade e, consequentemente, mais inconstância.
Me vejo como uma espécie de otimista pragmático em um mês e o niilista desesperançoso no outro. O "eu" que pediu com fé no versículo 6 já não habita mais o corpo de quem lê o versículo 8.
Ma há uma PERSPECTIVA para que haja saúde, para que seja suportável e possível continuar.
A "cura" ou o manejo aqui não passa por "tentar ter mais fé" (o que para o obsessivo vira mais um trabalho exaustivo e inalcançável), mas por aceitar a falta, a impossibilidade da plenitude, admitindo que a alma/mente é, sim, dividida e que a perfeição no "pedir" e no "ser" é impossível.
Diante do "mar interno" agitado, caótico, preciso de âncoras concretas como a terapia, a medicação adequada, referências e acompanhamentos maduros e graciosos de mentores(as) da fé, para que a vida aconteça apesar das certezas, incertezas, dos sentimentos e pensamentos antagônicos que tenho e sei que ainda terei.
Aurélio Gonzales